Falta de atividade física prejudica habilidades

PUBLICADO NO SITE: DIARIODONORTESTE
Com novas tecnologias e insegurança, crianças se movimentam
cada dia menos e se tornam “analfabetas motoras”
Atividades de lazer cada vez mais restritas a espaços
fechados, ora frente ao computador, ora frente à televisão e, quando em espaço
público, no máximo em playgrounds sob o olhar vigilante dos adultos. Tem sido
esta a realidade de boa parte das crianças brasileiras que, a cada dia, estão
se mexendo menos, com as cearenses seguindo essa tendência nacional. Para além
dessas mudanças comportamentais provocadas, principalmente, pela insegurança e
apego demasiado às novas tecnologias, este estilo de vida cria um problema
novo: as habilidades motoras das crianças estão ficando comprometidas.
 
Para especialistas, é importante que os pequenos pratiquem
exercícios por meio de brincadeiras, como jogar bola, para desenvolver o corpo
e relacionamentos com outras crianças e evitar problemas de saúde Foto: Kid
Júnior
 
Nada de pular corda, subir em árvores ou brincadeiras
coletivas, como jogar futebol na rua com os colegas. Uma situação que, para o
coordenador da Comissão de Educação Física Escolar do Conselho Federal de Educação
Física (Confef), Ricardo Catunda, possui alto grau de complexidade.
 
Para começar, estes meninos estão crescendo em defasagem
funcional, ou seja, chegam a uma determinada faixa etária sem dominar os
movimentos da forma adequada a ela. Catunda explica que, no processo de
crescimento, há fases específicas para o desenvolvimento de algumas
habilidades. Dos dois aos sete anos, por exemplo, a criança precisa aprender e
dominar movimentos fundamentais, como andar, correr, chutar, de maneira
equilibrada.
 
Já dos oito até os 13 anos, é o momento de refinar estas
ações, com novos padrões motores. Ele precisa ter domínio suficiente do seu
corpo para correr, saltar e chutar, simultaneamente, se for o caso. E essas
sequencias de domínio vão se sucedendo conforme às faixas etárias.
 
O que está acontecendo, entretanto, é que os meninos não
estão conseguindo respeitar essa relação habilidades/idade. Confinados em seus
quartos, apartamentos, condomínios e às atividades meramente individuais,
começam a apresentar defasagem no seu processo de desenvolvimento, numa
situação que os especialistas estão denominando de “analfabetismo
motor”. Eles possuem as condições, mas não sabem como usar.
 
Efeito dominó
 
Catunda, que também é professor do Curso de Educação Física
da Universidade Estadual do Ceará (Uece), diz que, a uma primeira vista, esse
comprometimento pode até parecer um problema restrito às questões de
mobilidade. Os danos, entretanto, são muito mais abrangentes, podendo ocorrer,
inclusive, como em um efeito dominó: as crianças que ficam com dificuldade de
realizar atividades físicas tornam-se sedentárias e podem ter problemas de
saúde, ficarem obesas e terem dificuldades de relacionamento com o outro.
“De uma maneira ou de outra, a sua vida social futura acaba sendo afetada
por isso”, diz.
 
Pensamento semelhante tem a pediatra Patrícia Sampaio, para
quem a prática de atividades físicas depende da rotina que a família segue.
“Como médica de crianças, percebo que muitas delas são ociosas e
sedentárias, passam o tempo livre somente assistindo televisão, comendo errado
e fora do horário. Entendo que o bom ou mau desenvolvimento das habilidades
físicas na infância depende dos pais, que devem incentivar os filhos a se
movimentar por meio de brincadeiras e pequenos exercícios”, diz.
 
A pediatra acrescenta, ainda, que a realidade de Fortaleza
não é diferente das outras grandes capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo e
Brasília. “Posso afirmar que atendo um grande número de crianças, em
Fortaleza, com sobrepeso. Porém, as que estão com peso ideal também estão
suscetíveis a apresentarem dificuldades em relação às atividade motoras,
principalmente se não forem estimuladas”.
 
O aumento da violência é outra questão levantada pela
médica, pois o medo de atropelamentos, assaltos e sequestros impede os pais de
liberarem os filhos para brincarem na rua.
 
Movimento
 
Mãe de Malu, de dois anos, a fisioterapeuta e mestre em
Saúde da Família, Cristiane Mattos, ressalta que brincar é uma saudável fonte
de estímulo ao desenvolvimento infantil, pois, por meio dessas brincadeiras, os
pequenos desenvolvem habilidades sensoriais, cognitivas, sociais, afetivas e,
principalmente, motoras.
 
Cristiane acredita que, para que a criança desenvolva
habilidades e se movimente, é preciso ter espaço. “Criança precisa ir para
o chão para estimular o movimento dos braços, pernas e pés, e também precisa
correr. No fim, é só uma questão de estímulo dos pais”. Como à medida que
a cidade cresce, as casas e apartamento vão ficando cada vez menores, a
fisioterapeuta lembra a importância de resgatar brincadeiras lúdicas e simples.
 
“O importante é descobrir quais as brincadeiras
preferidas e aproveitar para brincar e se movimentar junto. As brincadeiras
mais divertidas e indicadas são aquelas que exploram o movimento do corpo e a
coordenação motora. Através do brincar, a criança trabalha não só a parte
física, mas também a emocional e intelectual”, ressalta.
 
SAIBA MAIS
 
Como incentivar o movimento:
 
1. Entre o terceiro e o décimo mês de vida, os bebês já
começam a sentar e, assim, a ter uma nova visão do espaço em que ele vive e que
até então ele via deitado. Bolinhas e carrinhos são ótimas opções, pois se
afastam da criança, e ela tem que se deslocar para buscar, o que estimula o
engatinhar e os movimentos dos braços, pernas e mão.
 
2. Bicicletas, skate, patins, natação e futebol são ótimas
opções, pois atuam na coordenação motora e equilíbrio.
 
3. Brincar de correr pelo jardim ou dançar pelo apartamento
também são opções válidas para crianças que precisam mexer mais o corpo.
 
Classes média e alta têm mais dificuldades
 
O especialista em Educação Física Infantil e professor de
Capoeira Marcelo Rodrigues percebe que as crianças com mais dificuldades
motoras são as de classe média e alta. “Trabalho em escolas públicas e
particulares de Fortaleza, e isso é bem notório aqui. Como as crianças mais pobres
não têm condições de comprar vídeo games ou celulares, o que resta para elas é
brincar de correr pela rua ou soltar pipa”, diz.
 
O profissional acrescenta que os vídeo games que fazem as
crianças se movimentarem são válidos, mas isso não significa que elas devem
abandonar outras atividades físicas.
 
Incentivo
 
Ele lembra que exercícios físicas não estão relacionadas
apenas a prática de esporte e que natação e futebol são atividades válidas, mas
que o processo motor da criança pode ser incentivado de diversas outras formas,
com bolinhas, danças e brincadeiras no parque, por exemplo.
 
Como educador físico, ele garante que o esporte têm muito a
contribuir para o desenvolvimento do corpo, mas que essa atividade precisa
começar cedo para que a criança se acostume e veja, desde pequena, o esporte
como uma divertida brincadeira, e não como uma obrigação imposta por alguns
pais.

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